
Autismo ganha novas diretrizes clínicas
Em 23 de outubro de 2025, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) divulgou um novo documento com diretrizes atualizadas para o diagnóstico e manejo de crianças com transtorno do espectro autista (TEA). Esta nova versão das recomendações reflete novos avanços e estudos que surgiram desde a última atualização em 2021. De acordo com Erasmo Casella, membro do Departamento Científico de Transtornos de Neurodesenvolvimento da SBNI, o objetivo principal é esclarecer as áreas onde existem e onde não existem evidências robustas sobre o autismo.
Diagnóstico do Autismo
Um ponto crucial abordado no documento é a ausência de marcadores biológicos que permitam a detecção do autismo através de exames laboratoriais. O diagnóstico se baseia exclusivamente na observação clínica e na análise do comportamento da criança em diversos contextos. A SBNI recomenda que a investigação diagnóstica comece o mais cedo possível, preferencialmente entre 14 e 16 meses de idade, utilizando novas tecnologias de rastreamento, como dispositivos de rastreamento visual que foram recentemente aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos.
O documento também expande as recomendações para investigação genética, sugerindo o uso de microarranjos genômicos para detectar variações de DNA e, em situações específicas, o sequenciamento completo do exoma. Isso é particularmente relevante quando há suspeitas clínicas ou histórico familiar de condições relacionadas ao autismo. Além disso, a escala M-CHAT é recomendada para rastrear sinais precoces de autismo em crianças pequenas. Este questionário avalia comportamentos como a reação ao ser chamado pelo nome e o interesse em brincar com outras crianças.
Importância da Detecção Precoce
No Brasil, a aplicação de protocolos para avaliação do desenvolvimento psíquico infantil é obrigatória pela Lei Federal nº 13.438/2017. Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde anunciou a recomendação do uso da M-CHAT para identificar sinais de autismo em crianças de 16 a 30 meses nas unidades de saúde. O ministro Alexandre Padilha enfatizou que, assim como as vacinas têm um calendário recomendado, o mesmo deve acontecer com a observação do crescimento e desenvolvimento infantil, a partir das primeiras consultas.
Implicações do Uso de Telas
O novo documento também aborda a questão da exposição precoce a telas. A SBNI observa que o uso intenso de dispositivos eletrônicos em crianças pequenas pode levar ao surgimento de sintomas que se assemelham ao autismo, como atraso na fala, isolamento social, falta de contato visual e irritabilidade. Este conjunto de sintomas é descrito como “síndrome semelhante ao autismo”. No entanto, a SBNI ressalta que não há evidências que comprovem uma relação causal direta entre o uso de telas e o transtorno do espectro autista. A falta de estímulos adequados, por outro lado, pode contribuir para dificuldades comportamentais.
Tratamento e Uso de Medicamentos
Um aspecto importante destacado no documento é que atualmente não existe um medicamento que possa tratar o autismo em si, mas somente os sintomas ou condições associadas. O tratamento farmacológico deve ser considerado com cautela e sempre como um complemento às intervenções terapêuticas e educacionais, e não como um substituto. Medicamentos podem ser indicados em casos específicos, como irritabilidade intensa, agressividade, distúrbios do sono, ansiedade e sintomas obsessivo-compulsivos.
Entre os medicamentos mencionados, os antipsicóticos atípicos como a risperidona (aprovada para crianças a partir dos cinco anos) e o aripiprazol (a partir dos seis anos) são os únicos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o controle da irritabilidade e comportamentos agressivos em indivíduos com autismo. A SBNI também menciona que outros antipsicóticos podem ser utilizados em casos de resistência ao tratamento, embora isso ocorra de forma off-label.
Quanto ao uso de canabidiol (CBD) para pacientes com TEA, a postura da SBNI é de cautela, uma vez que não há evidências científicas suficientes que comprovem sua eficácia. Portanto, o uso de CBD deve ser avaliado com extrema prudência e não deve ser considerado parte das condutas terapêuticas baseadas em evidências.
Considerações Finais
As novas diretrizes apresentadas pela SBNI visam otimizar o diagnóstico e o tratamento do autismo, garantindo que as crianças afetadas tenham acesso a terapias eficazes e a um acompanhamento adequado. A detecção precoce, o manejo cuidadoso e a adoção de abordagens baseadas em evidências são fundamentais para melhorar a qualidade de vida das crianças com TEA e suas famílias.
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