Postergando a Punção de Linha Arterial em Pacientes com Choque

Postergando a Punção de Linha Arterial em Pacientes com Choque

O manejo de pacientes em estado crítico, especialmente aqueles em choque, é um dos temas mais debatidos na medicina intensiva. Um estudo recente comparou a eficácia da monitorização invasiva e não-invasiva da pressão arterial em pacientes com choque, avaliando seu impacto na mortalidade e na segurança do tratamento. A discussão gira em torno da cateterização arterial, um procedimento comum, mas cuja necessidade imediata em situações de choque levanta controvérsias.

Objetivo do Estudo

O artigo “Postergando a cateterização arterial no paciente grave com choque” de Miller et al. investiga se a cateterização arterial deve ser realizada de forma imediata ou se os pacientes podem ser mantidos sob monitoramento não-invasivo. Embora a prática de punção arterial seja comum na terapia intensiva, evidências sobre o uso de estratégias não-invasivas ainda carecem de comparações robustas, como aquelas em ensaios clínicos randomizados.

Metodologia

O estudo incluiu pacientes adultos internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) nas primeiras 24 horas de falência circulatória aguda, caracterizada por hipotensão persistente ou necessidade de vasopressores, juntamente com sinais de hipoperfusão tecidual. Os critérios de exclusão foram rigorosos, abrangendo pacientes sem leitura de pressão arterial, em circulação extracorpórea, ou recebendo altas doses de vasopressores, entre outros.

Os participantes foram randomizados em duas estratégias: uma não-invasiva e outra invasiva. A expectativa era de que a mortalidade em 28 dias entre os dois grupos não apresentasse diferenças significativas, com a hipótese de que a mortalidade seria ligeiramente menor na estratégia não-invasiva.

Resultados

No total, 1.010 pacientes foram incluídos no estudo, com 506 alocados no grupo não invasivo e 504 no grupo invasivo. Os resultados mostraram que a mortalidade em 28 dias foi de 34% no grupo não invasivo e 37% no grupo invasivo, uma diferença que não foi estatisticamente significativa. Além disso, não houve diferenças significativas em desfechos secundários, como dias livres de ventilação mecânica e necessidade de terapia renal substitutiva.

Entretanto, o grupo não invasivo apresentou uma incidência significativamente menor de complicações relacionadas à punção arterial, como hematomas e infecções, sugerindo que a abordagem não-invasiva pode ser mais segura para alguns pacientes.

Considerações sobre a Monitorização Não-Invasiva

A monitorização não-invasiva da pressão arterial pode ser uma alternativa viável, especialmente quando a precisão não é comprometida. Embora a acurácia da leitura possa ser um ponto de preocupação, o estudo sugere que a maioria dos pacientes não apresentou diferenças significativas na mortalidade ou em desfechos relacionados ao suporte orgânico.

Além disso, a necessidade de coletas de sangue foi maior no grupo não invasivo, o que levanta questões sobre a praticidade e a eficiência do manejo clínico. A experiência do profissional de saúde e a carga de trabalho em UTIs são fatores que também devem ser considerados ao decidir entre as duas abordagens.

Limitações do Estudo

Entre as limitações, destaca-se a impossibilidade de cegamento, o que pode ter introduzido viés nas decisões de tratamento. Além disso, a avaliação do desconforto dos pacientes pode não ter sido totalmente representativa, dado que muitos estavam sedados durante a pesquisa. Outro ponto é que o estudo não incluiu um número significativo de pacientes cirúrgicos ou com trauma, limitando a generalização dos resultados.

Conclusões Finais

Embora a monitorização invasiva da pressão arterial continue sendo um padrão na terapia intensiva, as evidências sugerem que métodos não-invasivos podem ser uma opção segura e eficaz para o manejo de pacientes em choque. É crucial que os profissionais de saúde considerem as características individuais de cada paciente e os critérios de exclusão antes de optar por uma estratégia de monitoramento.

Referências

Muller G, Contou D, Ehrmann S, Martin M, Andreu P, Kamel T, Boissier F, Azais MA, Monnier A, Vimeux S, Chenal A, Nay MA, Salmon Gandonnière C, Lascarrou JB, Roudaut JB, Plantefève G, Giraudeau B, Lakhal K, Tavernier E, Boulain T; CRICS-TRIGGERSEP F-CRIN Network and the EVERDAC Trial Group. Deferring Arterial Catheterization in Critically Ill Patients with Shock. N Engl J Med. 2025 Nov 13;393(19):1875-1888. doi: 10.1056/NEJMoa2502136.


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