
O Impacto da Atenção Primária no Controle de Doenças Crônicas no Brasil
As doenças crônicas não transmissíveis são responsáveis por mais de 72% das mortes no Brasil, com índices alarmantes de crescimento. O diabetes, por exemplo, apresentou um aumento de 135% entre 2006 e 2024, e a hipertensão já afeta quase 30% dos adultos brasileiros, conforme indicado pelo Vigitel 2025 do Ministério da Saúde. Na cidade de São Paulo, a hipertensão atinge um em cada quatro adultos, enquanto a prevalência do diabetes chegou a 11% da população em 2024, o que representa o dobro em relação a 2003, segundo dados da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Desafios e Tendências Futuras
Se não houver uma mudança significativa na abordagem de saúde, a expectativa é de um agravamento contínuo das condições. O Atlas de Diabetes 2025 prevê um aumento de 45% nos casos de diabetes na América Latina até 2050. Os gastos diretos com a doença no Brasil já ultrapassam R$ 42 bilhões anualmente. Apesar da evidência internacional sobre a importância da atenção primária no controle dessas doenças, o Brasil ainda carece de documentação adequada sobre esse modelo de cuidado.
Levantamento da Operadora de Saúde Alice
Um estudo recente realizado pela operadora de saúde Alice busca preencher essa lacuna ao acompanhar quase 80 mil pessoas durante o ano de 2025. Este levantamento, inédito entre planos de saúde brasileiros, foca em indicadores clínicos raramente monitorados, como controle glicêmico, taxa de reinternação e controle da pressão arterial. Os resultados demonstram que 69% dos pacientes com hipertensão têm a pressão controlada, em contraste com 54% da média nacional. Para diabéticos, a taxa de internação foi de apenas 37 por 100 mil membros, um terço da média dos países da OCDE, e 60% estão com a glicemia controlada, comparado a 47% nos Estados Unidos.
Modelo de Cuidado Centrado na Pessoa
O sucesso desses resultados pode ser atribuído à coordenação de cuidados e ao papel do Médico de Família e Comunidade (MFC), cuja presença cresceu 246% na última década, segundo a Demografia Médica 2023. Este profissional é capaz de resolver até 85% das queixas dos pacientes sem necessidade de encaminhamentos para outras especialidades. Na Alice, o MFC é responsável por acompanhar os pacientes ao longo do tempo, integrando cuidados com enfermeiros e especialistas, além de utilizar ferramentas digitais para monitorar dados clínicos em tempo real.
Dados mostram que 71% das consultas de pacientes hipertensos foram realizadas com o MFC, assim como 67% dos diabéticos e 69% dos pacientes com obesidade, com encaminhamentos apropriados a especialistas quando necessário. Segundo Matheus Moraes, cofundador e COO da Alice, “a saúde suplementar no Brasil tem um espaço enorme para evoluir, e a principal alavanca dessa evolução é a coordenação do cuidado, colocando as pessoas no centro.”
Padrões Internacionais de Controle do Diabetes
No que diz respeito ao diabetes, o exame de hemoglobina glicada (HbA1c) é o principal indicador de controle da doença. Na Alice, 60% dos membros que realizaram o exame estavam com a glicemia controlada em 2025, em comparação a 47% nos Estados Unidos, de acordo com a pesquisa NHANES, que é reconhecida globalmente por sua metodologia padronizada. Esse resultado reflete, em grande parte, o trabalho contínuo do Médico de Família e Comunidade, que ajusta tratamentos e coordena cuidados com especialistas.
As consequências do diabetes descontrolado são severas e incluem complicações renais, cardiovasculares e amputações. No entanto, apenas 13% dos membros da operadora de saúde apresentaram resultados graves no HbA1c, em comparação a 18% na Suécia, um país frequentemente considerado modelo em sistemas de saúde. A taxa de reinternação por diabetes em 30 dias foi de 6%, menos da metade do piso estimado pela American Diabetes Association, que é de 14%.
Controle da Obesidade e Abordagens Integradas
O controle da obesidade segue princípios semelhantes. Sem cirurgia bariátrica, 14% dos membros com obesidade conseguiram reduzir mais de 5% do peso corporal em pelo menos 10 meses, superando o 12% registrado em um estudo americano e se aproximando dos 16% do Reino Unido. Isso reflete uma abordagem que integra o Médico de Família, endocrinologistas e nutricionistas em torno de mudanças sustentáveis e individuais.
Impacto da Inteligência Artificial
O estudo também apresentou dados iniciais sobre o impacto da inteligência artificial na triagem de câncer de mama e colo do útero. Desde outubro de 2025, um agente de IA tem auxiliado na identificação de mulheres elegíveis para exames atrasados, esclarecendo dúvidas e agendando consultas. Como resultado, 61% das mulheres elegíveis entre 40 e 69 anos realizaram mamografias e 62% realizaram o papanicolau, conforme os protocolos estabelecidos.
Esses resultados refletem uma primeira fase do agente de IA, que tem como meta identificar e notificar pacientes para exames. A próxima fase já está em andamento, visando alcançar um grupo de cerca de 4 mil mulheres que precisam realizar ambos os exames simultaneamente.
Matheus Moraes conclui, “publicar esses dados segue a mesma lógica de uma publicação científica: apresentar o que estamos construindo e abrir para que o mercado analise e faça apontamentos que nos ajudem a evoluir. Quanto melhor o modelo, mais saúde entregamos para os nossos membros.”
Referências
- Alice
- American Diabetes Association
- Atenção Primária
- Doenças Crônicas
- Matheus Moraes
- Ministério da Saúde
- Faculdade de Saúde Pública da USP
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