
A pandemia de covid-19 deixou marcas profundas na sociedade brasileira, e cinco anos após seu auge, as memórias e interpretações desse período revelam um panorama desigual, fortemente influenciado por ideologias políticas. Uma pesquisa nacional realizada em março de 2023 elucidou como as percepções sobre a pandemia, a responsabilização pela gestão pública e a adesão às vacinas se distribuem de maneira distinta entre pessoas que se identificam com a esquerda ou com a direita.
Memória da Pandemia e Percepções de Gestão
Ao questionar os entrevistados se acreditam que uma abordagem diferente do governo federal poderia ter resultando em menos mortes, os resultados foram reveladores. Aproximadamente 40,5% dos participantes responderam afirmativamente, enquanto 28,6% afirmaram que não e 30,9% disseram não saber opinar. No entanto, a análise dos dados mostra uma disparidade significativa: entre os que se identificam como de esquerda, 71% acredita que outra condução teria reduzido as mortes, em contraste com apenas 15,6% entre aqueles que se consideram de direita.
Apoio à Responsabilização por Crimes Relacionados à Pandemia
A avaliação sobre a responsabilização por crimes cometidos durante a pandemia também apresenta um padrão ideológico semelhante. O apoio à realização de julgamentos é de 45% no total, mas sobe para 72% entre os que se identificam com a esquerda, enquanto apenas pouco mais de 20% dos entrevistados de direita apoiam essa ideia. A percepção é ainda mais acentuada entre os eleitores do governo atual: 71,1% dos que avaliam a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva como boa ou ótima apoiam os julgamentos, em comparação a apenas 24,8% entre os que têm uma avaliação negativa.
Adesão às Vacinas e Impacto da Ideologia
Quando se trata de saúde pública, a polarização ideológica também se reflete na adesão às vacinas. Apesar de uma participação geral de 72,1% nas campanhas do Programa Nacional de Imunizações, essa taxa é significativamente maior entre aqueles que se identificam com a esquerda. Entre os apoiadores do governo Lula, 81,6% afirmaram ter se vacinado, enquanto esse número cai para 66% entre seus opositores. Além disso, 27,9% dos entrevistados demonstraram algum nível de resistência às vacinas, seja por não se vacinarem (9,9%), por terem interrompido a imunização durante a pandemia (9,2%) ou por não saberem responder (8,8%).
Variações de Adesão por Perfil Social
A adesão às vacinas também varia de acordo com o perfil social. Por exemplo, entre pessoas com mais de 60 anos, a taxa de vacinação chega a 78,3%, enquanto entre os jovens esse número é de cerca de 62%. Regionalmente, o Sudeste apresenta uma adesão de 77,2%, em comparação com 62,5% no Norte. Ademais, as diferenças religiosas revelam uma tendência semelhante, com maior adesão entre católicos (75,6%) em comparação a evangélicos (66%).
Desconfiança em Relação à Vacinação contra a Dengue
Com a recente introdução da vacina contra a dengue pelo Instituto Butantan, o mesmo padrão ideológico foi observado. Entre os que se identificam com a esquerda, 65% manifestaram a intenção de se vacinar contra a dengue o mais rápido possível, enquanto apenas 46,2% dos que se identificam com a direita compartilharam desse desejo. Embora cerca de 70% dos entrevistados tenham uma atitude favorável ao novo imunizante, apenas 56,7% afirmam que pretendem se vacinar imediatamente, e 13,7% consideram a vacina importante, mas não prioritária neste momento.
Conclusão: O Impacto da Ideologia na Saúde Pública
Os dados coletados revelam uma ampla zona de hesitação entre a população, composta por grupos que manifestam indiferença, incerteza ou desinteresse em relação à vacinação. Essa hesitação é mais acentuada entre jovens e nas regiões Norte do Brasil. Os pesquisadores destacam que o posicionamento ideológico se tornou um fator central na forma como a sociedade brasileira percepciona a pandemia e avalia as medidas de saúde pública. A confiança nas vacinas permanece alta, mas a desinformação e a polarização política criam um abismo entre reconhecer a importância das vacinas e efetivamente se vacinar. Este cenário ressalta a necessidade de reconstruir a memória pública da pandemia e fortalecer a confiança nas políticas de saúde.
A pesquisa intitulada “Memória, justiça e reparação da pandemia de covid-19 e atual adesão às vacinas” foi conduzida pelo Instituto Idea, com a colaboração do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entrevistando 1.500 pessoas em março último. A amostra é representativa da população brasileira com 16 anos ou mais, com uma margem de erro de 2,5 pontos percentuais e um nível de confiança de 95%.
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