
Entraves no Acesso ao Transplante de Medula Óssea no Brasil
A situação do acesso ao transplante de medula óssea (TMO) no Brasil tem gerado preocupações significativas entre diversas organizações de saúde. A Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale), juntamente com a Associação Amigos da Medula Óssea (AMEO), a Sociedade Brasileira de Terapia Celular e Transplante de Medula Óssea (SBTMO) e a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), manifestaram sua inquietação sobre as limitações operacionais que afetam a assistência oncológica e hematológica por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
O Brasil possui um dos maiores programas públicos de transplante de medula óssea do mundo, e o Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME) se destaca entre os maiores registros mundiais de doadores. Contudo, o aumento contínuo da demanda por transplantes, impulsionado pelo envelhecimento populacional e pela ampliação das indicações terapêuticas, tem gerado desafios significativos.
Nos últimos anos, a estimativa é que cerca de 50% dos transplantes realizados no Brasil sejam do tipo haploidêntico. Entretanto, a indisponibilidade da ciclofosfamida, medicamento essencial para esses procedimentos, trouxe um cenário crítico. A previsão é que o abastecimento deste fármaco só seja normalizado a partir de julho de 2026, comprometendo a realização de transplantes no curto prazo.
Com a limitação dos transplantes haploidênticos, muitos pacientes têm sido direcionados para procedimentos com doadores não aparentados. Essa migração tem aumentado a pressão sobre o REDOME, especialmente na busca por doadores internacionais. Recentemente, as associações foram informadas sobre a limitação na importação de doadores, o que, segundo especialistas, é incompatível com a demanda emergencial. Isso pode resultar em atrasos no tratamento e restringir a escolha do doador mais adequado, impactando negativamente os resultados clínicos.
Desafios Estruturais e Financeiros
Além das questões relacionadas à disponibilidade de medicamentos, existem problemas estruturais que afetam o sistema de transplantes. Entre eles, destacam-se:
- Gargalos na coleta nacional de medula óssea;
- Remuneração considerada insuficiente para procedimentos de aférese e coleta;
- Subfinanciamento do REDOME, cujo orçamento não acompanha o crescimento da demanda.
Esses fatores têm resultado em filas de espera que acumulam dezenas de pacientes aguardando por transplantes, incluindo casos críticos como o de mieloma múltiplo, sem perspectiva clara de acesso ao tratamento em tempo hábil.
As medidas recentes adotadas podem ter efeitos prolongados e alterar significativamente o padrão assistencial vigente, o que requer ações urgentes e efetivas.
Propostas e Demandas das Entidades de Saúde
Diante do atual cenário, as entidades envolvidas estão defendendo uma revisão imediata das limitações na importação de doadores internacionais. Além disso, é essencial que haja:
- Flexibilização das restrições enquanto durar o desabastecimento da ciclofosfamida;
- Definição de critérios claros para priorização de casos mais graves;
- Recomposição do orçamento do REDOME;
- Medidas para agilizar a coleta nacional;
- Maior transparência na divulgação de dados sobre filas e tempos de espera.
As associações enviaram um ofício conjunto às autoridades competentes, incluindo a Coordenação-Geral do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) e o Departamento de Prevenção e Controle do Câncer (DCAN), relatando as preocupações com o cenário atual do transplante de medula óssea e solicitando medidas urgentes.
Além das demandas apresentadas, as associações estão mobilizadas para implementar ações que visem melhorar o cenário, como:
- Articulação institucional;
- Diálogo com especialistas e gestores;
- Levantamento de dados para subsidiar decisões e propostas estruturantes.
O objetivo dessas iniciativas é contribuir para o fortalecimento e a ampliação da capacidade do sistema de transplantes no Brasil, garantindo que mais pacientes tenham acesso ao tratamento necessário em tempo apropriado.
Nota de Responsabilidade: Os conteúdos apresentados no Saúde Business 365 têm caráter informativo e visam apoiar decisões estratégicas e operacionais no setor da saúde. Não substituem a análise clínica individualizada nem dispensam a consulta com profissionais habilitados. Para decisões médicas, terapêuticas ou de gestão, recomenda-se sempre o acompanhamento de especialistas qualificados e o respeito às normas vigentes.