
O aumento nos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) nos últimos anos revela uma mudança significativa na forma como a sociedade identifica e lida com essa condição. Um estudo recente da Memed, em colaboração com a NeuroSteps, indica que entre 2022 e 2025, houve um crescimento de quase 50% no número médio de pessoas com TEA atendidas por médicos. Esse aumento reflete não apenas uma maior busca por avaliações, mas também pressões crescentes sobre a rede assistencial, que precisa se adaptar a essa demanda crescente.
Crescimento da Densidade Diagnóstica
A métrica denominada “densidade diagnóstica”, que mede o número médio de pacientes com TEA atendidos por médico ao longo do ano, apresentou um aumento significativo, passando de 9,08 em 2022 para 13,61 em 2025. Esse aumento sugere que mais profissionais de saúde estão se envolvendo no diagnóstico e acompanhamento de indivíduos com TEA, refletindo uma conscientização crescente sobre a importância do tratamento precoce e adequado.
Mudanças na Idade do Diagnóstico
Uma das descobertas mais interessantes do estudo é a alteração na idade em que os diagnósticos estão sendo feitos. Embora a infância ainda concentre a maior parte dos casos, um deslocamento para idades mais avançadas tem sido observado. Atualmente, a faixa etária de 6 a 12 anos é a que mais apresenta diagnósticos, superando a primeira infância. Durante o período analisado, a proporção de crianças de 0 a 5 anos caiu de 42,17% para 30,13%, enquanto a de 6 a 12 anos aumentou para 35,15%.
Além disso, os diagnósticos de autismo têm se tornado mais comuns entre adultos. Indivíduos na faixa de 20 a 39 anos já representam 17,88% dos diagnósticos, e a participação de pessoas acima de 40 anos praticamente dobrou, alcançando 6,73%. Segundo o psicólogo Hiago Melo, esse fenômeno não indica que o autismo esteja surgindo mais tarde, mas sim que muitos casos não são identificados no momento adequado. Ele destaca que os sinais do TEA estão presentes desde a primeira infância, mas podem passar despercebidos, especialmente em casos mais leves, tornando-se mais evidentes com o aumento das demandas sociais e acadêmicas.
Reconhecimento Tardio e Implicações
Esse reconhecimento tardio do TEA pode explicar o aumento dos diagnósticos na vida adulta. Muitos pacientes passam anos sendo tratados para sintomas isolados, sem que o quadro geral seja compreendido. Frequentemente, o diagnóstico de uma criança na família leva os pais a buscar avaliação para si mesmos, o que contribui para a identificação tardia em adultos.
Diferenciação por Gênero
O estudo também aponta mudanças significativas no perfil de gênero dos diagnosticados. Na infância, a prevalência do autismo continua a ser maior entre meninos, especialmente na faixa de 6 a 12 anos. No entanto, essa tendência se inverte na vida adulta. Em 2025, mulheres entre 20 e 39 anos começaram a representar uma parcela maior dos diagnósticos do que homens da mesma faixa etária, e essa tendência se repete entre indivíduos com mais de 40 anos.
Aumento na Complexidade do Tratamento
Outro aspecto relevante é a crescente complexidade do tratamento do TEA. Nos últimos anos, houve um aumento significativo no uso de medicamentos, especialmente os direcionados ao manejo de comorbidades associadas ao autismo. As dez principais substâncias utilizadas mostraram um aumento superior a 70% na taxa de prescrição entre 2024 e 2025. A atomoxetina, por exemplo, teve um crescimento acima de 170%, indicando um reconhecimento crescente do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) como uma condição frequentemente associada ao autismo.
Contudo, é importante ressaltar que esse crescimento no uso de medicamentos não deve ser interpretado de maneira simplista. O aumento está mais relacionado ao manejo de comorbidades, como ansiedade, TDAH e distúrbios do sono, do que a mudanças na abordagem central do tratamento do autismo, que ainda se baseia principalmente em intervenções comportamentais e educacionais.
Desafios no Acompanhamento ao Longo da Vida
Os dados também indicam que o acompanhamento do TEA requer mais recursos ao longo do tempo. Um adulto jovem pode necessitar de quase o dobro de prescrições em comparação a uma criança, refletindo a complexidade clínica e as necessidades terapêuticas individuais que aumentam com a idade. Esse cenário reforça a ideia de que o autismo não é uma condição restrita à infância, mas um quadro que exige acompanhamento contínuo e uma rede de cuidados estruturada em todas as fases da vida.
Conclusão e Perspectivas Futuras
O diretor médico da Memed, Fábio Tabalipa, enfatiza que os dados coletados evidenciam uma transformação já em curso no Brasil em relação ao autismo. Ele destaca que a situação atual pode ser medida e que a crescente pressão sobre a rede médica, juntamente com a migração dos diagnósticos para novas idades e um arsenal farmacológico cada vez mais sofisticado, são aspectos que precisam ser considerados para melhorar o atendimento e o suporte às pessoas com TEA.
Essas informações não apenas ressaltam a importância de um diagnóstico precoce e efetivo, mas também a necessidade de uma abordagem integrada e contínua no tratamento e acompanhamento de indivíduos com Transtorno do Espectro Autista.
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