Câncer de Mama e Desigualdade entre SUS e Rede Privada

Mulheres em consulta sobre câncer de mama, representando as disparidades entre SUS e rede privada

Desigualdade no Diagnóstico e Tratamento do Câncer de Mama

Um estudo abrangente, realizado com mais de 65 mil mulheres no Estado de São Paulo, expõe disparidades significativas no diagnóstico e tratamento do câncer de mama entre as redes pública e privada de saúde. Esta pesquisa, uma das poucas de grande escala a quantificar as diferenças no sistema de saúde dual brasileiro, é crucial para entender como essas desigualdades impactam a sobrevida das pacientes a longo prazo.

Relevância do Estudo

O estudo intitulado “Determinantes relacionados à assistência médica no prognóstico do câncer de mama em São Paulo, Brasil: Uma coorte populacional”, publicado na Clinical Breast Cancer (Elsevier), é coordenado por Gustavo Nader Marta, médico do Departamento de Radioterapia do Hospital Sírio-Libanês. A pesquisa contou com a colaboração de especialistas de Brasil, Canadá e Estados Unidos, e utilizou dados da Fundação Oncocentro de São Paulo (FOSP), uma instituição ligada à Secretaria de Saúde do Estado.

Metodologia e Resultados

Entre os anos de 2000 a 2020, foram avaliadas 65.543 mulheres diagnosticadas com câncer de mama, divididas em dois grupos: pacientes atendidas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e aquelas que receberam atendimento pela saúde suplementar, que abrange operadoras e planos privados. O estudo revelou que as mulheres que foram atendidas no sistema privado apresentaram diagnósticos em estágios iniciais com maior frequência. Especificamente, 41% das pacientes no sistema privado foram diagnosticadas no estágio I, em comparação com apenas 21% das pacientes do SUS. Além disso, os casos avançados (estágios III e IV) foram significativamente mais prevalentes no sistema público.

Sobrevida e Impacto do Tratamento

A pesquisa também analisou a sobrevida global das mulheres ao longo de 10 anos, levando em consideração os diferentes estágios da doença. Os resultados mostraram que a sobrevida para pacientes no estágio I no sistema privado era de 81,6%, em contraste com 77,5% no SUS. Para o estágio II, as taxas eram de 74% contra 63,3%, e para o estágio III, 55,6% contra 39,6%. No estágio IV, a sobrevida foi de 7,6% no sistema privado em comparação com 6,4% no SUS.

A análise multivariada indicou que o tratamento no sistema privado estava associado a uma redução de 41% no risco de morte. Segundo Gustavo Marta, “o sistema onde a paciente é tratada tem um impacto mensurável na sobrevida, mesmo após o controle de variáveis clínicas importantes”. Ele acrescenta que “em oncologia, o tempo é prognóstico. O diagnóstico mais tardio observado no sistema público ajuda a explicar parte das diferenças encontradas”.

Acesso à Mamografia e Desafios no SUS

O mastologista Daniel Buttros, presidente da Comissão de Comunicação da Sociedade Brasileira de Mastologia e coautor da pesquisa, destaca que os resultados refletem, provavelmente, o acesso mais facilitado à mamografia para mulheres com planos de saúde. Embora o SUS tenha ampliado o acesso ao tratamento oncológico nas últimas décadas, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados na rede pública.

Considerada a neoplasia maligna mais comum entre mulheres no mundo, o câncer de mama exige uma abordagem eficaz para sua detecção precoce. A mamografia de rastreamento permanece a estratégia mais eficaz, permitindo tratamentos menos agressivos e melhores taxas de sobrevida. No entanto, mesmo com a recomendação do Ministério da Saúde para rastreamento regular a partir dos 40 anos, a cobertura mamográfica pelo SUS ainda é insuficiente, alcançando apenas 33% da população-alvo. Buttros enfatiza que “o ideal seria que 70% das mulheres realizassem o exame anualmente”.

Conclusão

Os resultados deste estudo de grande escala revelam que as diferenças estruturais no acesso ao diagnóstico precoce, na organização do cuidado e na infraestrutura assistencial podem influenciar diretamente os desfechos oncológicos, proporcionando uma melhor qualidade de vida para as mulheres brasileiras. É fundamental que políticas públicas sejam implementadas para garantir equidade no cuidado mamográfico em todo o país.

Referências

Clinical Breast Cancer (Elsevier).

Fundação Oncocentro de São Paulo (FOSP).


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