One Health é Contrassenso à Saúde Coletiva e SUS

One Health: Uma Análise Crítica em Relação à Saúde Coletiva e ao Sistema Único de Saúde

Um mural pintado pelo artista brasileiro Eduardo Kobra na sede da ONU em Nova York, com dimensões de 14 metros de altura por 24 metros de largura, ilustra a urgência de adotarmos práticas sustentáveis. A obra, que retrata um pai entregando o planeta à sua filha, provoca reflexões sobre o legado que deixaremos para as futuras gerações. A questão central é: que mundo deixaremos para as próximas gerações?

Introdução ao Debate sobre One Health

Recentemente, um ensaio intitulado “One Health como disputa de hegemonia: uma resposta na perspectiva da Saúde Coletiva” foi publicado por um grupo de autores, com o objetivo de resgatar a história da abordagem One Health e analisar seus impactos na política sanitária brasileira. O estudo alerta para os retrocessos que essa visão pode trazer, especialmente considerando as práticas de saúde anteriores a 1970.

Os autores destacam que, ao atender a acordos multilaterais e interesses corporativos, o Brasil adotou a abordagem One Health, o que contradiz o modelo de determinação social da saúde desenvolvido na América Latina. Eles afirmam que a One Health se limita à tríade agente-hospedeiro-ambiente, ignorando fatores como a exploração da natureza, a precarização do trabalho e as desigualdades territoriais.

One Health e Suas Implicações

A proposta One Health surgiu nos Estados Unidos na primeira década dos anos 2000, apoiada por instituições como o Banco Mundial e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa abordagem integra a relação entre humanos, animais e o meio ambiente, e busca resolver problemas complexos relacionados a zoonoses e epizootias. No entanto, essa perspectiva tem sido criticada por sua visão reducionista que desconsidera a complexidade social e ambiental da saúde.

O contexto atual de intervenções ambientais, impulsionado por modelos agropecuários e industriais, tem impactado profundamente os ecossistemas, favorecendo a transmissão de patógenos e a emergência de epidemias e pandemias. Além disso, as mudanças climáticas e demográficas intensificam as desigualdades na saúde e na biodiversidade.

Críticas à Implementação da One Health no Brasil

Em 2023, a implementação da abordagem One Health no Brasil foi marcada pela falta de diálogo com processos democráticos e consultivos, como a 17ª Conferência Nacional de Saúde. O Ministério da Saúde tratou o tema com pouca transparência, ignorando a importância da participação social na formulação de políticas de saúde.

As críticas à One Health concentraram-se em três aspectos principais: a verticalidade da abordagem, que desconsidera os processos democráticos; a utilização de uma narrativa sedutora que simplifica a complexidade das questões de saúde; e a adoção de um modelo biomédico que já se mostrou ultrapassado.

A Tríade Ecológica e Suas Limitações

A Tríade Ecológica, proposta por Leavell e Clark, foi um avanço na abordagem das doenças, mas ainda carece de uma compreensão mais complexa que inclua os determinantes sociais da saúde. A crítica à visão reducionista dessa abordagem é fundamental para o fortalecimento da Saúde Coletiva, que busca entender as interações entre sociedade e natureza.

Desafios e Oportunidades na Saúde Pública

A saúde pública, a agricultura e o meio ambiente estão interligados, e a crise sanitária atual evidencia a necessidade de uma abordagem que reconheça essa interdependência. A luta contra as zoonoses, por exemplo, requer ações intersetoriais que considerem não apenas a saúde animal, mas também as condições sociais e ambientais que favorecem a emergência de doenças.

O agronegócio, como setor econômico influente, desempenha um papel crucial nesse cenário. A produção de commodities agropecuárias e a indústria alimentícia têm impactos diretos na saúde pública e na sustentabilidade ambiental. A abordagem One Health, ao se alinhar aos interesses do agronegócio, pode reforçar práticas que não são compatíveis com a promoção da saúde integral e da justiça social.

A Importância da Soberania na Saúde Coletiva

A defesa da soberania na política de saúde é essencial para garantir que as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) sejam respeitadas e que a participação social seja valorizada. As abordagens que desconsideram a história e as conquistas da Saúde Coletiva podem representar uma ameaça ao avanço das políticas de saúde no Brasil.

Considerações Finais

A proposta One Health deve ser vista com cautela, considerando suas implicações para a saúde pública e a soberania do Brasil. É fundamental que se reconheçam as complexidades envolvidas nas interações entre saúde, ambiente e sociedade, e que as políticas de saúde reflitam essa realidade.

Para enfrentar os desafios contemporâneos, é necessário promover um debate crítico e transparente sobre a abordagem One Health e suas implicações, garantindo que a saúde pública no Brasil continue a ser orientada por princípios de justiça social, equidade e sustentabilidade.


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