Hanseníase é Desafio de Saúde Pública no Brasil

Desafios da Hanseníase como Questão de Saúde Pública no Brasil

A hanseníase, uma doença infecciosa crônica causada pelo bacilo Mycobacterium leprae, continua a ser um desafio significativo para a saúde pública no Brasil. Apesar dos avanços nos métodos de diagnóstico e na oferta de tratamento, o país ainda enfrenta dificuldades na controle e prevenção dessa condição. A campanha Janeiro Roxo, que visa aumentar a conscientização sobre a doença, destaca a importância do diagnóstico precoce, do tratamento adequado e da luta contra o estigma associado à hanseníase.

Dados Epidemiológicos

Entre 2014 e 2023, foram registrados 309.091 casos de hanseníase no Brasil, dos quais 80% foram classificados como novos. Esses números evidenciam a persistência da transmissão ativa da doença em diversas regiões do país. Após a queda significativa nos registros durante os anos mais críticos da pandemia de covid-19, um período em que o acesso aos serviços de saúde foi severamente afetado, os casos começaram a aumentar novamente. Em 2023, a taxa de detecção nacional alcançou 10,68 casos por 100 mil habitantes, um índice que o Ministério da Saúde considera elevado.

Embora o Brasil tenha reportado 22.129 novos casos em 2024, o que representa uma diminuição de 2,8% em relação ao ano anterior, o país permanece como o segundo no mundo em número absoluto de notificações, perdendo apenas para a Índia, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Contexto no Ceará

No estado do Ceará, os dados do boletim epidemiológico revelam uma situação preocupante. Em 2023, apenas 2,2% dos novos casos foram identificados por meio de exame de contatos, uma estratégia fundamental para a detecção precoce e a interrupção da cadeia de transmissão. A maioria dos diagnósticos ainda ocorre através de encaminhamentos ou por demanda espontânea, sugerindo que muitos pacientes chegam aos serviços de saúde em estágios mais avançados da doença.

Formas de Hanseníase e Complicações

Outro aspecto alarmante é a predominância da hanseníase multibacilar, que apresenta uma carga bacteriana maior e um potencial de transmissão significativo. Essa forma da doença corresponde a mais de 80% dos casos no Brasil e cerca de 70% dos registros em âmbito mundial. Quando não diagnosticada precocemente, a hanseníase multibacilar está associada a um maior risco de comprometimento dos nervos periféricos, podendo levar a incapacidades físicas e sequelas permanentes.

De acordo com o dermatologista Breno Fonseca, o comprometimento neurológico é um dos principais sinais de alerta da hanseníase e tende a evoluir de forma silenciosa. “O dano neurológico é progressivo e é característico da hanseníase começar com a perda da sensibilidade térmica, ao calor ou ao frio, e evoluir posteriormente para a perda da sensibilidade tátil”, explica o especialista. Esse padrão ajuda a diferenciar a hanseníase de outras dermatoses, reforçando a importância de uma avaliação médica diante de manchas na pele associadas a alterações de sensibilidade.

Transmissão e Prevenção

A transmissão da hanseníase ocorre principalmente através do contato próximo e prolongado com pessoas não tratadas, sendo a via respiratória a mais comum. Portanto, a prevenção está diretamente relacionada ao diagnóstico precoce, ao início imediato do tratamento e à avaliação dos contatos domiciliares. Após o início da medicação, não é necessário o isolamento social, pois o paciente rapidamente deixa de ser transmissor da doença.

O tratamento é realizado por meio da poliquimioterapia, uma combinação de antibióticos disponibilizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A duração do tratamento varia de seis a doze meses, dependendo da forma clínica da hanseníase. “Quando o tratamento é iniciado no momento adequado, é possível interromper a transmissão, evitar sequelas e garantir qualidade de vida ao paciente”, enfatiza o especialista.

A Importância da Campanha Janeiro Roxo

A campanha Janeiro Roxo desempenha um papel fundamental na promoção da conscientização sobre a hanseníase, enfatizando que a informação, a vigilância e o acesso ao cuidado são essenciais para enfrentar uma doença que tem cura, mas que ainda exige a atenção contínua da sociedade e dos serviços de saúde.


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