Saúde Mental na Residência Médica e o Cansaço Excessivo

Saúde Mental na Residência Médica: Quando o Cansaço Deixa de Ser Normal

A residência médica é um dos períodos mais desafiadores na formação de um profissional da saúde. Durante essa fase, os médicos em formação enfrentam longas jornadas de trabalho, alta pressão e exigências constantes, o que pode levar a um estado de cansaço que, em alguns casos, ultrapassa os limites do que é considerado normal. Mas como saber quando esse cansaço se transforma em algo mais sério? É fundamental reconhecer os sinais de alerta e a importância de buscar apoio durante essa jornada.

Reconhecendo os Limites Pessoais

A psiquiatra Tayne Miranda, especialista em saúde mental, destaca que a autocomparação é um bom ponto de partida para entender os próprios limites. “Na psiquiatria, utilizamos o padrão de funcionamento individual para discernir entre o que é normal e o que é patológico. Pequenas mudanças no comportamento e na disposição podem indicar transformações mais profundas”, afirma.

Sinais de Alerta que Não Devem Ser Ignorados

É crucial estar atento a alguns sinais que podem indicar que o estresse está além do saudável, tais como:

  • Oscilações de humor intensas, irritabilidade e tristeza persistente;
  • Perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas;
  • Cansaço contínuo, mesmo após períodos de descanso;
  • Sensação de desconexão com o trabalho e perda de propósito;
  • Alterações no sono, apetite e peso;
  • Dificuldade de concentração e lapsos de memória;
  • Aumento do consumo de álcool ou substâncias psicoativas;
  • Sintomas físicos sem causa orgânica aparente;
  • Sentimentos de culpa ou inutilidade.

“Um cansaço normal tende a melhorar após um período de descanso. Quando isso não ocorre, é um sinal de que a situação pode ser mais grave”, alerta a especialista.

Impactos da Estrutura e Cultura Institucional

Além do esforço individual, mudanças nas instituições de formação são essenciais para prevenir o adoecimento mental entre os residentes. A medicina, por muito tempo, romantizou o sofrimento como um componente necessário para a formação de bons profissionais. A privação de sono e o estresse contínuo são frequentemente vistos como provas de resistência, validando a competência do médico.

A carga horária oficial de 60 horas semanais já é intensa, mas frequentemente é ultrapassada. Além disso, a necessidade de estudar fora do expediente e buscar uma renda extra contribui para um cenário de exaustão. Outro fator que agrava a situação é a cultura hierárquica rígida, que pode incluir episódios de humilhação e feedbacks constrangedores, criando um ambiente onde pedir ajuda é considerado um sinal de fraqueza.

“O residente está em formação e é natural que ele cometa erros e precise de apoio. O ambiente deve permitir isso de forma segura e supervisionada”, enfatiza a Dra. Tayne. Ela defende que as instituições devem cumprir a carga horária legal, capacitar preceptores para uma supervisão respeitosa e revisar a lógica que depende do trabalho excessivo dos residentes. “Cuidar da saúde mental do médico é parte indissociável do cuidado ao paciente”, acrescenta.

O Medo de Buscar Ajuda

Apesar dos sofrimentos emocionais, muitos residentes hesitam em procurar ajuda psiquiátrica. O medo do estigma e das repercussões na carreira ainda são barreiras significativas. “A cultura médica valoriza o heroísmo e a capacidade de suportar tudo. Buscar ajuda é frequentemente visto como uma fraqueza, o que é um equívoco. Procurar tratamento é um ato de coragem e responsabilidade”, ressalta a especialista.

Ela destaca que um médico mentalmente saudável é mais atento, empático e menos propenso a cometer erros. “Pedir ajuda não é o oposto de ser um bom médico; é o que permite que o profissional continue a ser competente”, conclui.

Mini-Hábitos que Fazem Diferença

Embora a rotina na residência médica seja apertada, a adoção de pequenas práticas de autocuidado pode ter um impacto significativo no bem-estar. Algumas sugestões incluem:

  • Praticar atividade física regularmente, mesmo que em baixa frequência;
  • Estabelecer uma higiene do sono com horários regulares;
  • Dedicar tempo a hobbies e atividades fora da medicina, sem pressão por desempenho;
  • Manter vínculos afetivos e convívio social, fundamentais para o apoio emocional.

“É claro que a residência é um período complicado, com pouco tempo e energia. Portanto, é importante lembrar da máxima de que o feito é melhor que o perfeito. O essencial é reservar algum espaço para o autocuidado, por menor que seja”, finaliza a psiquiatra.


Nota de Responsabilidade: Os conteúdos apresentados no Saúde Business 365 têm caráter informativo e visam apoiar decisões estratégicas e operacionais no setor da saúde. Não substituem a análise clínica individualizada nem dispensam a consulta com profissionais habilitados. Para decisões médicas, terapêuticas ou de gestão, recomenda-se sempre o acompanhamento de especialistas qualificados e o respeito às normas vigentes.

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