
Deficiências Nutricionais Após Cirurgia Bariátrica: Diferenças Entre Sleeve e Bypass
A obesidade é um crescente problema de saúde pública que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Em busca de soluções eficazes, a cirurgia bariátrica tem se destacado como uma das melhores opções para a perda de peso e a melhoria das comorbidades associadas. Contudo, é vital considerar que, após a cirurgia bariátrica, podem ocorrer deficiências nutricionais significativas, com consequências adversas para a saúde dos pacientes.
As técnicas mais comuns de cirurgia bariátrica incluem a gastrectomia vertical (sleeve) e o bypass gástrico, ambas realizadas por videolaparoscopia. Cada uma dessas abordagens pode resultar em diferentes perfis de deficiências nutricionais. Um estudo recente, conhecido como SLEEVEPASS, foi conduzido para investigar essas diferenças ao longo de um período de 10 anos.
Objetivo do Estudo SLEEVEPASS
O estudo SLEEVEPASS tinha como meta comparar as deficiências nutricionais e a adesão a suplementos nutricionais em pacientes submetidos a gastrectomia vertical laparoscópica e bypass gástrico laparoscópico. Realizado na Finlândia entre 2008 e 2010, o estudo envolveu 240 pacientes randomizados para cada uma das técnicas. Os participantes foram acompanhados por 10 anos, com foco em diversas suplementações vitamínicas e minerais, incluindo vitamina D, B12, cálcio e ferro.
Métodos e Suplementação
No decorrer do estudo, os pacientes foram monitorados quanto à adesão às suplementações. As orientações para a suplementação eram fundamentais, uma vez que as deficiências nutricionais podem levar a quadros graves, como anemia e outras condições relacionadas. O acompanhamento foi finalizado em 2021, permitindo uma análise detalhada dos dados coletados ao longo da década.
Resultados Observados
Após 10 anos de acompanhamento, os resultados mostraram que os pacientes que passaram pelo bypass gástrico apresentaram uma maior deficiência de ferro em comparação aos que realizaram a gastrectomia vertical. Especificamente, 41% dos pacientes que se submeteram ao bypass mostraram níveis baixos de ferritina, em contraste com apenas 14% dos pacientes que fizeram sleeve.
Além disso, a adesão aos suplementos nutricionais foi significativamente maior no grupo do bypass gástrico, com 89% dos pacientes seguindo as recomendações, em comparação a 71% no grupo do sleeve. No entanto, não foram encontradas diferenças estatísticas relevantes nas prevalências de insuficiência de vitamina D, deficiência de vitamina B12 e hipocalcemia entre os dois grupos.
Discussão dos Achados
Esses resultados indicam que a técnica cirúrgica utilizada pode impactar diretamente as deficiências nutricionais pós-operatórias. O bypass gástrico, que altera o trânsito alimentar e reduz a absorção no duodeno, está associado a níveis mais elevados de deficiência de ferro. A maior adesão à suplementação entre os pacientes do bypass pode ser influenciada por fatores como a percepção de risco e a educação sobre a importância dos nutrientes.
Por outro lado, a menor adesão à suplementação no grupo do sleeve não resultou em diferenças significativas nos níveis de vitaminas e minerais, sugerindo que o tempo de acompanhamento e a adaptação dos pacientes ao novo estilo de vida podem ter um papel importante na manutenção dos níveis nutricionais.
Conclusão e Recomendações Práticas
Os achados do estudo SLEEVEPASS revelam que a deficiência de ferro é mais prevalente entre os pacientes submetidos ao bypass gástrico laparoscópico, ao passo que a adesão à suplementação é maior nesse grupo. É crucial que pacientes que apresentem baixos níveis de ferritina sejam orientados sobre a necessidade de suplementação e que a escolha da técnica cirúrgica leve em consideração essas variáveis.
As recomendações práticas incluem:
- Pacientes com deficiência de ferro devem considerar a gastrectomia vertical como uma opção cirúrgica preferencial.
- A adesão à suplementação nutricional deve ser incentivada em ambos os grupos cirúrgicos, independentemente da técnica utilizada.
Referências Bibliográficas
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