Os wearables, como smartwatches e anéis inteligentes, têm se tornado cada vez mais populares, mas a forma como utilizamos esses dispositivos pode influenciar nossa saúde mental. Esses dispositivos são capazes de monitorar diversos aspectos da saúde, desde a qualidade do sono até as variações na frequência cardíaca. Embora possam ser ferramentas valiosas, também podem se tornar fontes de ansiedade e hipocondria, especialmente quando os usuários se tornam excessivamente dependentes dos dados que eles fornecem.
O impacto dos wearables na saúde mental
De acordo com a antropóloga cultural Natasha Schüll, que estuda o fenômeno dos wearables, esses dispositivos têm o potencial de “agenciar a vida individual” de maneira preocupante. Muitos usuários de aplicativos de fitness e saúde, como Strava e GymRats, podem entrar em um ciclo de autovigilância constante, o que pode prejudicar a capacidade de tomar decisões independentes sobre sua saúde.
O caso de Maria Luiza
Uma situação ilustrativa é a da analista de marketing Maria Luiza Senhorinho, de 29 anos, que se tornou dependente dos dados gerados por seu smartwatch. “Agora, eu acompanho o meu sono e tenho um aplicativo que me avisa quando eu preciso beber água”, conta. Essa constante monitorização levou Maria Luiza a desenvolver um comportamento de autocobrança, onde a necessidade de cumprir metas diárias, como a quantidade de água ingerida ou a qualidade do sono, se tornou uma fonte de estresse.
A relação entre monitoramento e ansiedade
Estudos recentes indicam que a ansiedade relacionada ao uso de wearables é uma preocupação crescente. Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte descobriram que cerca de 20% dos pacientes com fibrilação atrial que utilizam esses dispositivos relataram sinais de ansiedade. A psicóloga Lindsey Rosman, que lidera essa pesquisa, observa que muitos pacientes ficam tão obcecados pelos dados que acabam buscando atendimento médico, mesmo quando não há uma emergência real.
O ciclo vicioso da ansiedade
Rosman explica que esse fenômeno pode ser explicado pelo Modelo de Incerteza e Antecipação da Ansiedade (UAMA). Quando os usuários verificam constantemente a frequência cardíaca em seus dispositivos, a ansiedade pode aumentar, levando a um aumento na frequência cardíaca e à necessidade de monitoramento contínuo, criando um ciclo vicioso de preocupação.
O paradoxo da ortossonia
Outra preocupação relacionada ao uso de wearables é o conceito de ortossonia, que se refere à obsessão por obter um sono perfeito. O professor Alan Luiz Eckeli, especialista em Medicina do Sono, alerta que essa busca pode aumentar a ansiedade e a hipervigilância, dificultando o relaxamento necessário para adormecer. Um estudo da Universidade de Bergen apontou que 14% dos usuários de aplicativos de monitoramento de sono desenvolveram preocupações excessivas sobre sua qualidade de sono, com 11,2% relatando estresse relacionado aos dados.
Cuidados na utilização de wearables
É fundamental que os usuários de wearables compreendam que os dados que esses dispositivos oferecem são estimativas e não mensuram diretamente sua saúde. Além disso, é importante reconhecer que a tecnologia pode ser um gatilho para a ansiedade, especialmente em pessoas predispostas a quadros ansiosos. O psiquiatra Márcio Bernik destaca que a busca incessante por métricas e a autocobrança podem exacerbar problemas de saúde mental.
Estratégias para gerenciar a ansiedade
Para romper o ciclo de ansiedade gerado pelo uso de wearables, os especialistas recomendam algumas estratégias. A psicoeducação, que envolve entender os gatilhos que geram sintomas de ansiedade, é fundamental. Técnicas de respiração profunda, exercícios de relaxamento e atividades ao ar livre podem ser eficazes. Além disso, acompanhamento psicológico, especialmente terapia cognitivo-comportamental (TCC), pode ajudar os indivíduos a gerenciar melhor sua relação com a tecnologia.
É possível ter uma relação saudável com a tecnologia, como demonstrou a servidora pública Daniela Loureiro, que optou por um dispositivo que não a mantém constantemente informada sobre seus dados. Com o acompanhamento médico adequado, Daniela encontrou um equilíbrio, utilizando a tecnologia de forma a beneficiar sua saúde sem comprometer seu bem-estar mental.
Em suma, enquanto os wearables oferecem a capacidade de monitorar a saúde de forma inovadora, é essencial utilizá-los com cautela e consciência. A compreensão de que os dados são apenas uma parte do quadro de saúde pode ajudar os usuários a evitar a armadilha da ansiedade.
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