
O tratamento por hemodiálise é uma necessidade vital para muitos pacientes com doença renal crônica, mas também apresenta um impacto ambiental significativo. Em média, cada paciente em tratamento de hemodiálise pode consumir impressionantes 78 mil litros de água por ano. Essa realidade se torna ainda mais preocupante em um contexto de mudanças climáticas, onde a escassez de recursos naturais e eventos climáticos extremos afetam a saúde pública de maneira alarmante.
Impactos das Mudanças Climáticas na Nefrologia
As mudanças climáticas não são apenas uma preocupação ambiental, mas também um desafio crescente para a saúde. Pacientes com doenças renais são especialmente vulneráveis a condições climáticas adversas, como ondas de calor e falta de energia elétrica, que são essenciais para a realização da diálise. Além disso, a própria prática da terapia renal substitutiva consome grandes quantidades de água e energia, o que contribui para um aumento das emissões de carbono.
De acordo com o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o setor da saúde é responsável por cerca de 5% a 10% das emissões globais de carbono. Portanto, é essencial adotar práticas sustentáveis dentro da assistência renal.
Iniciativas para uma Nefrologia Sustentável
Em resposta a esses desafios, a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) instituiu, em 2023, o Comitê de Nefrologia Sustentável. Este comitê tem como objetivo desenvolver estratégias que tornem a assistência renal mais eficaz e ambientalmente responsável. A nefrologista Cinthia Vieira, coordenadora do comitê, destaca a integração entre o cuidado renal e a preservação ambiental: “O cuidado com os rins não pode estar separado do cuidado com o meio ambiente”, afirma.
Benefícios da Sustentabilidade na Diálise
Embora a Nefrologia Sustentável ainda seja um tema pouco discutido no Brasil, outros países já estão adotando estas práticas. Ao contrário de muitos setores em que a sustentabilidade implica altos custos, na diálise, diversas iniciativas sustentáveis podem resultar em economias significativas. Algumas dessas ações incluem:
- Reaproveitamento da água descartada pelos sistemas de osmose reversa;
- Uso de energia solar;
- Gestão eficiente de insumos e resíduos.
Essas práticas não apenas diminuem os impactos ambientais, mas também ajudam as clínicas de diálise a reduzir custos operacionais, o que é vital em um setor que frequentemente opera com margens financeiras apertadas. “É uma situação em que todos ganham”, explica Cinthia Vieira, ressaltando a importância de oferecer um atendimento de qualidade enquanto se minimiza o impacto ambiental.
Desafios e Oportunidades
O impacto ambiental da terapia renal substitutiva é notável, com uma única sessão de hemodiálise consumindo, em média, 500 litros de água. Isso resulta em aproximadamente 323 quilos de resíduos sólidos gerados por paciente ao longo de um ano. Além disso, o consumo elevado de energia elétrica é outro aspecto preocupante que deve ser abordado.
As diretrizes elaboradas pelo Comitê de Nefrologia Sustentável visam preparar a nefrologia para os futuros desafios impostos pelas mudanças climáticas, que devem aumentar a incidência de doenças renais associadas ao calor extremo e à desidratação. As recomendações incluem:
- Educação contínua sobre práticas sustentáveis;
- Monitoramento de indicadores ambientais;
- Uso eficiente de água e energia;
- Gestão adequada de resíduos.
Um Compromisso com o Futuro
O compromisso com a sustentabilidade na nefrologia vai além da preservação ambiental. Cinthia Vieira enfatiza que “sustentabilidade é garantir que continuemos oferecendo assistência de qualidade para as próximas gerações”. O uso consciente dos recursos não apenas reduz desperdícios, mas também fortalece o sistema de saúde e protege tanto os pacientes quanto o planeta.
As diretrizes e recomendações do comitê foram amplamente aceitas, com 98,5% de concordância durante a 2ª Convenção da Diretoria da Sociedade Brasileira de Nefrologia e suas regionais, e foram publicadas recentemente no Brazilian Journal of Nephrology. Essa iniciativa representa um passo importante rumo a uma prática nefrológica mais consciente e responsável.
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