Pesquisadores Corrigem Genes de Embriões e Debatem Bebês Editados

Pesquisadores realizando edição genética em embriões humanos

Pesquisadores da Universidade Columbia, localizada em Nova York, conduziram um estudo inovador utilizando uma técnica de edição genética conhecida como base editing para modificar o DNA de embriões humanos em estágios iniciais. Este trabalho, divulgado na plataforma bioRxiv no início de junho e sem revisão de pares, gerou reações polarizadas dentro da comunidade científica, com muitos elogiando a precisão da técnica, enquanto outros expressaram preocupações sobre os riscos associados ao seu uso prematuro.

O que é a técnica de base editing?

A técnica de base editing permite que os cientistas façam alterações específicas no código genético, alterando uma única letra de cada vez. Isso é feito sem a necessidade de cortar as duas fitas de DNA, como ocorre na edição convencional com CRISPR. Essa abordagem minimiza o risco de alterações indesejadas no genoma, embora não elimine completamente a possibilidade de efeitos colaterais.

Alterações genéticas e suas implicações

A equipe, liderada pelo biólogo celular Dieter Egli, focou na modificação de três genes que estão associados a condições de saúde como colesterol elevado, anemia falciforme e beta-talassemia. Embora a técnica represente um avanço significativo, especialistas em fertilidade levantam alertas sobre a facilidade de montar um laboratório de fertilização in vitro (FIV) combinado com edição genética, o que poderia levar a usos irresponsáveis dessa tecnologia e a consequências imprevisíveis para os bebês gerados.

Os desafios da técnica e o fenômeno do mosaicismo

Um dos principais desafios identificados nos testes realizados é o fenômeno conhecido como mosaicismo, onde as edições genéticas não ocorrem de maneira uniforme em todas as células do embrião. Isso significa que algumas células podem ter recebido a alteração desejada, enquanto outras mantêm a sequência original do DNA. Além disso, o componente utilizado para introduzir o editor de DNA causou a interrupção da divisão celular, inviabilizando qualquer aplicação clínica imediata.

Perspectivas sobre a edição genética

Para muitos pesquisadores, o debate sobre a edição embrionária parte de uma premissa questionável. Alguns especialistas consideram que a técnica de edição genética é uma solução buscando um problema, uma vez que o diagnóstico genético pré-implantacional (PGT) já permite a identificação e seleção de embriões saudáveis durante o processo de FIV, sem a necessidade de alterar o DNA.

A visão de especialistas brasileiros

No Brasil, o avanço dessa tecnologia é acompanhado com interesse, mas especialistas ressaltam a importância de priorizar as necessidades do mercado local. Bruno Coprerski, diretor de operações da Centogene para o Brasil e América Latina, observa que, embora os dados do estudo de Columbia sejam valiosos, eles não alteram a hierarquia das estratégias disponíveis.

Segundo Coprerski, “a edição genética é, de fato, uma alternativa e os dados trazem subsídios importantes para que esse debate avance com segurança. Mas a prevenção é um caminho muito mais eficaz”. Ele enfatiza que a edição genética deve ser considerada principalmente em situações onde a prevenção não é viável, especialmente em países com deficiências estruturais nesse aspecto.

O que já existe e funciona

O diagnóstico genético pré-implantacional (PGT) é dividido em diferentes modalidades, cada uma com indicações específicas:

  • PGT-A: Verifica se os embriões possuem o número correto de cromossomos, reduzindo riscos de abortos e aumentando as chances de uma gravidez saudável.
  • PGT-M: Recomendado quando existe um risco conhecido de transmissão de uma doença monogênica específica.
  • PGT-SR: Indicado para casais com histórico de abortos recorrentes devido a rearranjos cromossômicos estruturais.

Esses testes já são parte da rotina de clínicas de reprodução assistida no Brasil, representando o estado da arte da medicina preventiva aplicada à genética. A edição do genoma embrionário, se algum dia for integrada à prática clínica, encontrará um sistema que já aprendeu a lidar com informações genéticas de maneira criteriosa.

A medicina reprodutiva de precisão

Atualmente, a medicina reprodutiva de precisão concentra esforços em diagnosticar e orientar o planejamento familiar com base em dados genéticos consolidados. Nesse cenário, empresas especializadas, como a Centogene, utilizam grandes bases de dados clínicos e genéticos para apoiar o diagnóstico de doenças raras e neurodegenerativas.

A prioridade na área de reprodução humana continua sendo ampliar o acesso ao rastreamento de portadores, investigar a infertilidade, gerenciar perdas gestacionais recorrentes e realizar testes pré-implantacionais (PGT). Para os especialistas, o avanço neste campo dependerá da combinação entre inovação tecnológica e evidências científicas robustas.

Bruno Coprerski conclui que “o estudo de Columbia é um sinal do que pode vir. Por enquanto, a fronteira da medicina reprodutiva de precisão segue sendo definida pela capacidade de diagnosticar com exatidão e orientar pacientes com base em evidências, não em promessas”.


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