Entenda o Novo Olhar do SIG para Impulsionar Resultados

Ilustração de um médico analisando a condição de um paciente com caquexia em um ambiente clínico.

O novo olhar do Grupo de Interesse Especial (SIG) da ESPEN sobre a caquexia em doenças crônicas apresenta uma abordagem inovadora e esclarecedora sobre uma condição muitas vezes mal compreendida. A caquexia é uma síndrome metabólica complexa que se associa não apenas a doenças crônicas, mas também a condições agudas, sendo frequentemente confundida com um simples emagrecimento ou vista como um sinal de terminalidade. Este documento de opinião visa desafiar essas percepções e promove uma compreensão mais detalhada e direcionada ao tratamento.

Compreendendo a Caquexia e a Desnutrição Relacionada à Doença

A caquexia e a desnutrição relacionada à doença (DRD) com inflamação crônica são frequentemente tratadas como sinônimos. Essa inter-relação é baseada em uma compreensão patofisiológica que considera a presença de inflamação sistêmica, aumento do catabolismo, diminuição da ingestão alimentar e mudanças na composição corporal. O diagnóstico de DRD com inflamação é estabelecido conforme os critérios do framework GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition), que requer no mínimo um critério etiológico, como a redução da ingestão alimentar ou a presença de inflamação, e um critério fenotípico, como a perda de peso, baixo índice de massa corporal (IMC) ou diminuição da massa muscular.

Fenótipos da Caquexia

Um aspecto crucial discutido no documento é a caracterização dos fenótipos da caquexia, o que permite personalizar intervenções nutricionais e metabólicas. A manifestação da caquexia varia de paciente para paciente e é influenciada por fatores como a doença subjacente, idade, sexo, composição corporal inicial e resistência à insulina. Os fenótipos são dinâmicos e podem evoluir ao longo do tempo, conforme a resposta ao tratamento ou a progressão da doença. Em muitos casos, a trajetória da desnutrição começa com a perda de tecido adiposo, seguida pela redução da massa muscular e, finalmente, pela queda do IMC. Identificar em que estágio o paciente se encontra é essencial para definir a melhor estratégia terapêutica.

Inflamação e Tratamento Nutricional

A inflamação desempenha um papel fundamental na eficácia das intervenções nutricionais em pacientes com caquexia. Estudos indicam que pacientes com altos níveis de proteína C-reativa (PCR) tendem a ter uma resposta menos favorável à terapia nutricional. Contudo, o SIG ressalta que essa relação não deve ser considerada uma regra absoluta. Quando a inflamação é controlada, a capacidade anabólica do organismo pode ser restaurada. Mesmo em situações de inflamação aguda, como grandes queimaduras ou sepse, intervenções nutricionais individualizadas podem proporcionar benefícios significativos. Novas ferramentas diagnósticas, como abordagens metabolômicas, estão sendo desenvolvidas para identificar respostas inflamatórias específicas em pacientes com caquexia, permitindo uma precisão diagnóstica aprimorada e tratamentos mais personalizados.

Caquexia: Uma Condição Reversível

Um equívoco comum é associar a caquexia a uma fase terminal da doença. O SIG contesta essa ideia, enfatizando que a caquexia pode surgir em qualquer fase de uma doença crônica ou aguda e é, ao menos em parte, reversível. Evidências mostram que intervenções nutricionais adequadas podem não apenas melhorar o estado nutricional, mas também o prognóstico em pacientes com câncer, doença renal crônica, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e insuficiência cardíaca congestiva. É importante esclarecer que, nos últimos dias de vida, a terapia nutricional pode ter benefícios limitados, resultando em um cuidado paliativo mais apropriado.

Desafios e Oportunidades no Manejo da Caquexia

Apesar do reconhecimento da caquexia como uma condição tratável, ainda existem barreiras que dificultam seu diagnóstico e manejo adequado. Pesquisas indicam que mais de 50% dos pacientes relatam que seus médicos não abordam questões nutricionais durante o tratamento. Além disso, muitos profissionais de saúde esperam uma perda de peso de 15% antes de iniciar qualquer intervenção nutricional, o que é um ponto de intervenção tardio. Para superar esses obstáculos, o SIG recomenda a implementação de programas de treinamento em atenção primária, a inclusão da educação nutricional nos currículos médicos e o fortalecimento dos serviços comunitários de nutrição.

Conclusão

O documento do SIG-ESPEN destaca que a caquexia é uma condição dinâmica e heterogênea, que pode ser tratada com intervenções adequadas. A identificação do fenótipo, a quantificação da inflamação e a intervenção precoce são pilares essenciais para uma abordagem clínica eficaz. O desafio agora é disseminar esse conhecimento, alcançando não apenas os especialistas em nutrição, mas todos os profissionais que cuidam de pacientes com doenças crônicas.

Referência: Molfino A, Imbimbo G, Rothenberg E… “Phenotype profiling of disease-related malnutrition with inflammation: Document elaborated by the ESPEN special interest group (SIG) ‘cachexia-anorexia in chronic wasting diseases’.” Clinical Nutrition, 2026; 59.


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